Marco Fernandes *
Há cerca de dez anos, o povo pobre da periferia de Buenos Aires, na Argentina (e de outras cidades do país) decidiu que não suportaria mais calado o sofrimento imposto pelo desemprego e pela miséria que castigava o país. Em pleno governo neoliberal de Carlos Menen, a classe média e os ricos ainda viviam o sonho consumista, viajando para Florianópolis e Miami como quem vai até a esquina. É quando surgem as primeiras organizações de desempregados, os chamados movimentos piqueteiros.
O país foi então obrigado a ouvir a voz daqueles que não tinham espaço: a massa de pobres produzidos por uma economia em colapso, que em 2002 chegou a ter 30% de desempregados e mais da metade da população abaixo da linha de pobreza. A Argentina, que havia sido um país de classe média até meados dos anos 70, tinha se tornado um país de milhões de pobres.
Desse país localizado ao sul do Brasil e nosso eterno rival no futebol, surgiu um dos exemplos mais criativos de organização popular dos últimos anos. Os piqueteiros foram criados inicialmente no interior, por volta de 1996, mas em pouco tempo os desempregados de Buenos Aires também começaram a se organizar. Por isso, o movimento se massificou à medida que era capaz de mobilizar mais e mais trabalhadores e trabalhadoras em torno de uma mesma reivindicação. Era uma espécie de seguro-desemprego, chamado de plan, além de cestas básicas para que as famílias pudessem expulsar a fome de dentro de suas casas. Sua principal ferramenta de luta também é original. Incapazes de fazer greves para pressionar o Estado a atender suas reivindicações, pois desempregados não podem parar a produção de mercadorias, os piqueteiros apostaram então nos massivos bloqueios de pontes, estradas e ruas das cidades, por dias e até mesmo semanas.
Estes atos chegaram a reunir dezenas de milhares de pessoas numa mesma marcha. Desta forma, paravam a circulação das mercadorias, causando prejuízos aos empresários e obrigando os meios de comunicação a dar voz àqueles que mais sofreram as conseqüências das desastradas políticas econômicas dos últimos anos.
Organização comunitária
Contudo, o baixíssimo valor dos planes, algo em torno de pouco mais de 200 reais, nem de longe bastava para a sobrevivência das famílias. Isso ajudou a impulsionar formas de organização comunitária nos bairros da periferia com o objetivo de baixar o custo de vida da população. O primeiro passo foi organizar fundos comuns, em que cada família que recebia um plan contribuía com 10 ou 20 pesos. Graças a essa poupança coletiva, começaram a funcionar milhares de cozinhas comunitárias, padarias e hortas onde se produzia alimento barato e se gerava uma pequena renda graças à venda desses produtos para a vizinhança. O recurso arrecadado voltava para os comedores (os restaurantes comunitários). Depois de algum tempo, apareceram outras iniciativas, como creches, bibliotecas, espaços de formação política e até mesmo pequenas cooperativas têxteis, marcenarias e ferrarias. Todas essas iniciativas foram dirigidas por assembléias populares nos bairros.
Graças a essa forma de organização, os piqueteiros se tornaram a mais importante força popular do país neste começo de século e um símbolo de resistência às inaceitáveis injustiças de nosso continente. Mais de dez anos se passaram desde então e, apesar do avanço de consciência e organização das classes populares que o movimento piqueteiro representou na história recente da Argentina, já é possível visualizar alguns limites e fraquezas. Algo que é necessário refletir para o avanço da luta de classes no país.
A maior dessas limitações é a terrível fragmentação dos movimentos. Incontáveis cisões ocorreram nos últimos anos e quem acompanha de perto os piqueteiros já contabiliza, por alto, mais de uma centena de organizações em todo a Argentina. Há 5 anos, não eram mais do que uma dezena.
Não há dúvida de que isso impossibilitou a construção de uma estratégia comum, enfraqueceu seu poder de mobilização e de pressão, e facilitou a vida do governo Kirchner, que soube cooptar inúmeros movimentos. Ao mesmo tempo, isolou e enfraqueceu as organizações que seguiram opondo-se à política econômica que, apesar do crescimento dos últimos anos, não foi capaz de alterar significativamente o nível de precarização do trabalho e a pobreza da população.
Reflexão e autocrítica
Por outro lado, muitas organizações também fazem suas autocríticas. Não foram capazes de construir alianças orgânicas com sindicatos combativos, que também surgiram no calor das lutas da última década, a fim de fortalecer a unidade entre empregados e desempregados. Não conseguiram transformar os pequenos projetos produtivos em sustento para as famílias do movimento, para além dos planes (salvo exceções, como a de alguns movimentos que conseguiram financiamento do Estado e hoje constróem casas populares e sistemas de água na periferia). Não puderam transformar efetivamente os espaços criados nos bairros (comedores, padarias, pequenas cooperativas) em algo como núcleos de poder popular, que promovessem outras lutas comunitárias e pudessem servir de ferramenta de formação, mobilização e organização de uma parcela maior do povo da periferia.
Contudo, muitas companheiras e companheiros piqueteiros afirmam que o momento é de reflexão, de consolidação do que já foi criado e de descoberta de novas práticas, porque a luta de classes é feita de idas e vindas. Estes desafios estão na ordem do dia para muitos dos movimentos piqueteiros, e podem servir de lição para um novo ciclo de lutas urbanas que é preciso construir também por aqui no Brasil, nas periferias das metrópoles brasileiras. Apesar de sabermos que cada país deve seguir seu caminho na construção do poder popular, já que cada conjuntura pede respostas originais, também aprendemos com os Racionais MC’s (grupo de rap brasileiro) que: “periferia é periferia em qualquer lugar!”
* Marco Fernandes é integrante do MTST e pesquisador dos movimentos piqueteiros argentinos
Assista ao vídeo "Chico Mendes – A Dignidade que não se rende"
Clique no link abaixo:
http://video.indymedia.org/en/2006/06/380.shtml
Está em formato "avi", que pode ser facilmente aberto na maioria dos visualizadores de vídeo.
DEBATE DOMINGO: ALTERAÇÃO DE HORÁRIO
Por problemas de agenda, a atividade foi antecipada para as 14:00. Pedimos desculpas pelo inconveniente!
Convidamos a todos para um debate sobre a construção do poder popular, com
Plínio de Arruda Sampaio.
Data: 21 de maio (domingo)
Horário: 16 horas
Local: Comunidade Chico Mendes
O Encontro Estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto de São Paulo ocorrerá no próximo fim de semana no município de Jandira - SP. Além de debatermos diversos temas relacionados a movimentos sociais, faremos uma grande avaliação das conquistas do MTST e pensaremos seus caminhos para o futuro.
Gostaríamos de convidar todos os amigos e simpatizantes do movimento para participarem do evento de abertura do encontro no dia 3 de março, às 19H. Nesta noite apresentaremos a história do MTST e contaremos com a intervenção de algumas organizações convidadas. Venha nos conhecer melhor!
Abertura do Encontro Estadual do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto
Onde: Av. Conceição San Martino, 350 – Centro
(próximo ao Largo 8 de dezembro)
Jandira – SP
Fotos da inauguração da Biblioteca da Comunidade Chico Mendes.
Doe livros! Entre em contato conosco (mtst @ riseup . net) ou leve-os diretamente para o local.
"Direitos esquecidos: Moradia na periferia" - 13min
Produzido pela Brigada de Guerrilha Cultural do Acampamento do distrito autônomo de Chico Mendes - MTST(Movimento dos Trabalhadores Sem Teto), Taboão da Serra Lacandona, 2005
Foi exibido ontem, terça feira (27/12) entre 16:00 e 18:00 na Rede TV! canal 09 da televisão aberta, em parceria através da rede Coalisão Subverso Popular de ativistas e militantes que atuam com vídeo e cinema.
Tudo isso graças à um processo jurídico realizado pelo Centro de Direitos Humanos, pelo ministério público e ong's de direitos humanos contra o apresentador João Kleber por discriminação aos homossexuais e as mulheres.
Trata-se de uma grande vitória dos companheiros na luta contra a discriminação sexual, contra a banalização dos direitos e contra a naturalização da violência. Esses canais que utilizam de concessões públicas e fomentam a nossas custas a alienação e introjeção de valores do consumo, do imediatismo, do individualismo e do preconceito.